Inteligência artificial sugere medicamentos contra o novo coronavírus

As notícias sobre o surto do chamado novo coronavírus (2019-nCoV) já levaram a Organização Mundial da Saúde a declará-lo emergência de saúde pública. Diante deste quadro, cientistas se apressam para entender melhor sobre esse vírus, e assim possibilitar o desenvolvimento de formas eficientes de tratamento. Dois trabalhos apresentados no início do mês relatam possíveis medicamentos contra a infecção descobertos por inteligência artificial.

No primeiro deles, pesquisadores da empresa BenevolentAI e da Universidade Imperial de Londres usaram algoritmos para cruzar dados da estrutura molecular do vírus com informações biomédicas sobre receptores e doenças relevantes para encontrar alvos de drogas potenciais. O trabalho foi adaptado para incorporar uma descoberta de outro artigo publicado em janeiro, que sugeria a forma de entrada do vírus nas células humanas. A pesquisa revelou uma enzima chamada de quinase de proteína associada a adaptador (AAK1) como possível alvo terapêutico. Esta enzima regula o processo pelo qual uma célula incorpora material extracelular, sendo esta uma das formas de entrada de partículas virais. Depois de identificar o alvo, os pesquisadores elegeram a droga com maior afinidade pela enzima e menor toxicidade para o organismo, de um universo de 378 moléculas. A droga escolhida, chamada de baricitinibe, já é aprovada para uso em artrite reumatoide, o que poderia agilizar seus estudos clínicos. Os autores alertam para as limitações do estudo, já que se trata de uma simples busca em bases de dados, mas deve ser reconhecido que, sem a ajuda da inteligência artificial, este trabalho seria muito mais demorado.

No segundo trabalho, que ainda está em processo de revisão por pares, pesquisadores da empresa Insilico Medicine apresentaram seis novas moléculas também descobertas por inteligência artificial, com potencial para limitar a habilidade do vírus de se replicar nas células. Outros pesquisadores do vírus já haviam sugerido o uso de drogas antivirais aprovadas chamadas de inibidores de protease do tipo 3C com a mesma finalidade, mas o grupo da empresa Insilico entendeu que o que se conhece sobre a protease do vírus sugere que seria necessário utilizar doses muito altas para que estas drogas fossem efetivas. Eles então usaram algoritmos para avaliar a estrutura do sítio de ligação da protease com um inibidor representativo de um vírus quase idêntico ao 2019-nCoV, o coronavírus que causou a epidemia de SARS em 2003. O algoritmo foi configurado para ter preferência por moléculas com estrutura similar àquela de drogas conhecidas. Como resultado, seis moléculas novas são descritas, sendo significativamente diferentes de drogas conhecidas, mas ainda efetivas como inibidor da enzima de acordo com as predições do algoritmo. Os pesquisadores agora buscam parcerias para produzir e testar estas moléculas.

Mesmo se, no final das contas, estes trabalhos não resultarem em tratamentos eficientes contra o novo coronavírus, eles são exemplos de como os métodos baseados em inteligência artificial contribuem na velocidade do processo de descoberta científica, o que é essencial em períodos de emergência como o iniciado por essa crise.

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